Carta aberta ao Brasil

MEU NOME NÃO É SUJO.MEU NOME ESTÁ SUJO.

A diferença inteira está no verbo.

Uma coisa é o que a pessoa é. Outra é o que ela está. Dívida é situação — e situação passa. É por causa dessa diferença que esse movimento existe.

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Não é um grupinho. É o Brasil.

Fonte: Serasa Experian — Mapa da Inadimplência, 2026.

83,9 mi

de pessoas negativadas em julho de 2026 — o maior número da série histórica, depois de 19 meses seguidos de alta.

+ da metade

da população adulta brasileira já aparece na conta da inadimplência.

332 mi

de dívidas em aberto. E, ao longo da década, as mulheres viraram maioria nessa lista.

Se dívida sujasse a pessoa, o Brasil teria mais de oitenta milhões de gente sem caráter.
E todo mundo sabe que não é verdade.

Ninguém é gripado.
As pessoas estão gripadas.

A gente não diz que alguém é doente quando pega uma gripe. Diz que está doente. Porque todo mundo entende que gripe passa — e que gripe não explica quem a pessoa é.

Com dívida, o Brasil nunca aprendeu a fazer isso.

Negativação é uma informação de crédito com prazo de validade de cinco anos. Só isso. Não é sentença. Não diz quem é boa mãe, bom pai, bom profissional, boa pessoa.

A dívida é do CPF.
A vergonha não precisava ser da pessoa.

Antes de tudo: o que esse movimento NÃO é

Não é pedido de calote. Ninguém aqui está pedindo pra não pagar. A maior parte dessas pessoas quer pagar, trabalha pra pagar e perde noite de sono por causa disso. O que falta é caminho que caiba no bolso.

Não é ataque a banco, loja ou empresa nenhuma. Cadastro de inadimplência tem função legítima: medir risco de crédito. O problema não é ele existir — é ele ter virado um carimbo sobre a pessoa inteira, usado pra decidir coisas que não têm nada a ver com crédito.

Não é causa só de quem deve. Quem nunca atrasou nada na vida provavelmente ama alguém que já atrasou.

O que a gente está pedindo

Quatro pedidos. Dois deles já são lei — e simplesmente não são cumpridos.

Pedido 1
Precisa de lei nova

Negociar estando em dia tem que valer a pena.

Banco negocia com quem está em dia, sim — e negociar é o certo a fazer. O que ele não oferece são as mesmas condições.

Para quem está negativado, o mercado corta os juros e chega a abater a maior parte da dívida: os feirões de renegociação anunciam desconto de até 99%. Para quem está em dia, o que costuma aparecer é prazo mais longo — a dívida continua inteira, com os juros dentro.

Isso não é opinião de especialista nem método de ninguém: é como as instituições operam. São as regras do jogo.

E o resultado dessas regras é perverso. Quem se virou para não atrasar recebe as piores condições. Quem parou de pagar recebe as melhores. Na prática, o sistema recompensa o atraso e pune o esforço.

Isso contraria o que a lei já determina. A Lei 14.181/2021 não fala só em tratar o superendividamento — fala em prevenir, e trata expressamente do consumidor de boa-fé, reconhecendo que uma pessoa honesta pode, sim, chegar ao ponto de não conseguir pagar. A prevenção está escrita na lei e não chega ao balcão.

O pedido: que o tamanho do abatimento não dependa de ter atrasado. Quem comprovar comprometimento de renda deve poder repactuar com condição real, sem precisar deixar de pagar primeiro — e sem que o pedido, por si só, vire anotação negativa ou corte de limite.

Pedido 2
Já é ilegal — falta cumprir

Restrição no nome não pode fechar a porta do emprego.

Esse é o mais absurdo dos quatro, porque já é ilegal e continua acontecendo todo dia.

A Lei 9.029/95 proíbe prática discriminatória no acesso ao emprego. E o Tribunal Superior do Trabalho já condenou empresa por dano moral coletivo exatamente por consultar cadastro de crédito de candidato em processo seletivo. O entendimento é direto: a situação de crédito não diz nada sobre a capacidade profissional de ninguém, e a consulta só se justifica quando o cargo tem relação objetiva com manuseio de valores.

O pedido: deixar a vedação expressa na lei, com sanção clara, ressalvadas as funções em que exista fundamento objetivo — e criar um selo público voluntário para as empresas que declararem: aqui, cadastro de crédito não entra em processo seletivo.

Muita empresa já não consulta. O que falta é dizer isso em voz alta — porque hoje quem está negativado desiste da vaga antes mesmo de ser recusado.

Pedido 3
A garantia já existe na lei

Moradia não pode ser decidida só por uma consulta.

A Lei do Inquilinato (8.245/91) já lista a caução como garantia válida e, quando em dinheiro, limita a três meses de aluguel. A mesma lei proíbe exigir mais de uma garantia no mesmo contrato.

Na prática: a pessoa tem renda, tem o valor disponível, oferece os três meses adiantados — risco zero pro locador — e mesmo assim é recusada por uma consulta automática. Um algoritmo diz não sem olhar o resto.

O pedido: que a locação residencial não possa ser recusada com base exclusivamente em restrição de cadastro quando houver garantia ou comprovação alternativa de capacidade de pagamento — e que a caução em dinheiro possa passar dos três meses por opção de quem aluga, porque um teto criado pra proteger o inquilino virou desculpa pra recusar o inquilino.

Pedido 4
Mudança pequena, efeito grande

Quando o nome entra na lista, os direitos têm que entrar junto.

Hoje a comunicação de negativação informa uma coisa só: o que a pessoa deve. Não informa que o Código de Defesa do Consumidor, no artigo 43, manda dar baixa automática depois de cinco anos, contados do vencimento. Não informa que existe uma lei de superendividamento. Não informa que renegociar é direito, não favor.

O pedido: que a comunicação de inclusão em cadastro de restrição seja obrigada a informar, no mesmo documento, os direitos de quem está sendo incluído.

Assine a carta

Assinar aqui é dizer uma coisa só: dívida é uma situação, não uma identidade. Leva 20 segundos.

Ao assinar, a pessoa concorda em receber as novidades do movimento. Sem custo nenhum, e é possível sair quando quiser.

Assinatura registrada. Obrigada.

Agora vem o segundo passo, e é ele que faz virar lei: apoiar a proposta no portal oficial do Senado.

VER O PRÓXIMO PASSO

E o terceiro passo é o que mais pesa: chamar mais gente.

Assinatura de internet não muda lei. Essa aqui, sim.

Petição comum serve pra mostrar apoio — e isso é importante. Mas ela não obriga ninguém a nada.

Existe um caminho oficial: o Portal e-Cidadania, do Senado Federal. Uma ideia legislativa que alcança 20 mil apoios em até 4 meses vai obrigatoriamente à Comissão de Direitos Humanos, que vota se aquilo vira projeto de lei de verdade.

Vinte mil pessoas. De oitenta e três milhões.

É preciso um cadastro rápido no portal do Senado. Leva 2 minutos e é o que dá força de verdade ao pedido.

A carta, na íntegra

Ler a Carta Aberta ao Brasil

Meu nome não é sujo. Meu nome está sujo.

Entre essas duas frases existe a diferença entre uma pessoa e uma situação. E é por causa dessa diferença que essa carta existe.

A gente não diz que alguém é doente quando pega uma gripe. Diz que está doente. Porque todo mundo entende que gripe passa, e que gripe não explica quem a pessoa é. Com dívida, o Brasil nunca aprendeu a fazer isso.

Os números

Em julho de 2026 o Brasil chegou a 83,9 milhões de pessoas negativadas — o maior número desde que essa conta começou a ser feita, depois de 19 meses seguidos de alta. No levantamento de 10 anos do Mapa da Inadimplência, a inadimplência já alcança mais da metade da população adulta brasileira. São mais de 332 milhões de dívidas em aberto. E, ao longo da década, as mulheres se tornaram maioria nessa lista.

Se dívida sujasse a pessoa, o Brasil teria mais de oitenta milhões de gente sem caráter. E todo mundo que está lendo isso sabe que não é verdade. Porque essas pessoas são a mãe, o pai, o irmão, o colega de trabalho, o vizinho. São gente que acorda cedo, sustenta família e paga o que consegue.

O que essa carta não é

Não é pedido de calote. Não é ataque a banco, loja ou empresa nenhuma. E não é causa só de quem deve — quem nunca atrasou nada na vida provavelmente ama alguém que já atrasou.

O que a gente está pedindo

Os quatro pedidos estão listados acima, nesta mesma página, com a base legal de cada um.

E tem um quinto pedido que não é pro Congresso. É pra gente.

"Nome sujo" virou sinônimo de irresponsabilidade neste país. Não é. Nunca foi.

Tem gente hoje que deixou de mandar currículo. Deixou de procurar casa. Deixou de atender o telefone na frente dos filhos. Não por causa da dívida — por causa da vergonha.

A dívida é do CPF. A vergonha não precisava ser da pessoa.

Meu nome não é sujo. Meu nome está sujo. E o que está, passa.

Nadia Pace — auditora, contadora, consultora financeira e correspondente
há mais de 20 anos.
Setembro de 2026.

Vinte mil pessoas. De oitenta e três milhões.

A conta é essa. E ela não fecha com uma pessoa assinando — fecha com cada uma chamando mais três.

Quem nunca atrasou nada na vida provavelmente ama alguém que já atrasou. Manda pra essa pessoa.